. Manuel Augusto Rodrigues
Faleceu no passado dia 23 de Dezembro o conhecido teólogo flamengo dominicano Edward Cornelius Florentinus Alfonsus Schillebeeckx. Conhecido internacionalmente, ele é seguramente um dos teólogos mais importantes do séc. XX. A amplidão e abrangência da sua obra e a influência das suas ideias e o modo novo de fazer teologia fazem dele um dos maiores teólogos dogmáticos católicos. Soube com perspicaz intuição incorporar na teologia o resultado dos estudos bíblicos dos dois últimos séculos e da cultura do seu tempo.
Nascido a 12 de Dezembro de 1914 em Antuérpia entrou para a ordem dominicana, tendo feito a sua formação em Gand , Lovaina, Paris (Sorbonne e École dês Hautes Études en Sciences Sociales) e em Le Saulchoir. Em Lovaina, como professor de teologia ensinava desde a teologia da criação até à escatologia, incluindo teologia propedêutica, sacramentos e cristologia. Além desta actividade publicava artigos e dava conferências, não deixando também de exercer trabalho pastoral. A sua tese doutoral sobre a economia sacramental da salvação teve enorme repercussão na teologia holandesa e na renovação da teologia dos sacramentos. 

Durante largo período de tempo leccionou na Universidade Católica de Nimega. Foi a fase mais criativa e rica da sua evolução científica. Entretanto era convidado por diversas universidades estrangeiras para dar cursos e fazer conferências, tendo nos Estados Unidos convivido com vários teólogos americanos como A. Dulles, H. Cox, Mc Kenzie e C. Smith. Fundou um novo jornal de teologia (1960) e foi, em 1965, membro fundador da revista “Concilium”, juntamente com outros teólogos famosos como Yves Congar, Karl Rahner, Johann Baptist Metz e Hans Küng. Esta revista era editada em oito idiomas, inclusive em português, mantendo-se ainda na actualidade. Participou activamente no Concílio Vaticano II como conselheiro do cardeal holandês Alfrinck e em Roma fez ouvir a sua voz em encontros com bispos conciliares.
O pensamento de Schillebeeckx desdobrou-se à volta de três centros de interesse: a secularização e a relação da Igreja com o mundo, uma grande preocupação hermenêutico-critica e uma vincada paixão pela cristologia. Tornou-se conhecido nos meios teológicos e eclesiais à escala mundial por duas volumosas obras de cristologia-soteriologia: “Jesus, a história de um vivente” (1974), “Cristo e os Cristãos” (1977) e “O mistério eclesial” (1981). A Sagrada Congregação da Doutrina da Fé moveu-lhe alguns processos, mas nunca chegou a ser condenado. À afirmação tradicional “Fora da Igreja não há salvação” contrapôs estoutra: “Fora do mundo não há salvação”.
O pensamento do célebre teólogo de Nimega acerca da relação do cristianismo com as diversas religiões aproxima-se em muitos aspectos ao de outro grande intelectual, Jacques Dupuis, como se pode ver pelo livro deste último intitulado “Vers une théologie chrétienne du pluralisme religieux” (Paris, 1997). Aqui deixamos um extracto do capítulo Jesus Cristo, uno e universal. O problema que se coloca é este: como é que o cristianismo pode defender a unicidade de Jesus Cristo e atribuir ao mesmo tempo um valor positivo às diferentes religiões. Dupuis apoia a tese de Schillebeeckx que numa das suas obras escreve: «A teologia, discurso sobre Deus, é mais do que a cristologia; dito de outra forma, enquanto que como cristãos sabemos e podemos fazer de Jesus Cristo o centro da história para nós próprios, não estamos em condições de sustentar ao mesmo tempo que a revelação histórica da salvação feita por Deus em Jesus Cristo esgota a questão de Deus, o que não é aliás necessário. Embora não nos seja possível atingir Jesus na sua plenitude, a menos que se tenha em conta ao mesmo tempo a sua relação única com Deus, que é uma de uma natureza especial particular, isto não significa, por si, que o modo de vida único de Jesus seja o único caminho para Deus. Porque o próprio Jesus não só revela Deus, mas o esconde simultaneamente, mas oculta-o igualmente, pois que apareceu entre nós numa humanidade não divina, uma humanidade de criatura. Como homem, ele é um ser histórico e contingente, que não pode de modo algum representar todas as riquezas de Deus…a menos que se negue a realidade da sua verdadeira humanidade…Assim, mesmo o Evangelho nos leva a não falar de imperialismo e exclusivismo religioso cristão».
Schillebeeckx foi um homem que desde cedo se habituou a afirmar-se pessoalmente e de modo crítico perante situações da vida e problemas que lhe foram sendo apresentados. A sua reconhecida capacidade de estudo e pesquisa, de confronto e de diálogo com diferentes linhas de pensamento, não só de teologia, mas também de outras áreas.
Assumiu como principal interlocutor o ser humano secularizado. O seu pensamento caracteriza-se por um conhecimento sério, profundo e sempre actualizado das questões candentes que interpelam a teologia e a fé cristã e das que se desenvolvem ao lado da teologia e com isto pela interdisciplinaridade. O diálogo inter-religioso, a relação do cristianismo com as outras religiões, a secularização – eis alguns temas caros a Schillebeeckx. Foi um teólogo ardoroso, profundamente crente e envolvido com as questões eclesiais e pastorais contemporâneas; um homem de acção que soube enfrentar as questões humanas do seu tempo e comprometido com os problemas humanos concretos. Um teólogo que tendo sido precursor do Concílio Vaticano II veio a viver ainda a fase pós-conciliar e a extrair não poucas conclusões do trabalho e vicissitudes ocorridos numa fase especial da história da Igreja. Considerava-se um teólogo feliz pelo que realizou e por ter vivido numa época de grandes transformações da vida da Igreja e da sociedade. O vasto e fecundo legado que nos deixou perpetuará eloquentemente a sua memória.
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