. A. Jesus Ramos
1. Não podia estar mais de acordo com as afirmações proferidas por D. Carlos Azevedo a propósito do desgoverno deste país. O Bispo Auxiliar de Lisboa soube verbalizar o que pensam milhões de portugueses sobre a crise económica, sobre a forma como alguns poucos enriquecem à custa do suor da maioria e sobre o modo de resolver o problema da pobreza no país.
O desafio lançado aos políticos católicos (a que se devem juntar os profissionais liberais e outros detentores de negócios lucrativos) no sentido de disporem de vinte por cento dos seus ordenados (ou dos seus lucros) para um fundo contra a pobreza é merecedor de todo o apoio. É verdade que alguns (poucos) reagiram dizendo que já pagam impostos altíssimos. E é verdade. Só que o que lhes sobra, depois dos impostos, é imensamente mais do que o necessário para alguém viver de modo digno. E a denúncia das fortunas fabulosas da banca conseguidas com as pequenas poupanças dos pequenos agricultores, dos operários e da laboriosa classe média é mais que pertinente. É preciso que haja vozes que, energicamente, se levantem para representar e defender os que não têm possibilidades de subir a uma tribuna pública, de onde possam dar conta, mais que da sua indignação, da sua revolta. Nos anos cinquenta e sessenta do século passado ouviu-se, em Moçambique, a voz inconformada de D. Sebastião Soares de Resende denunciando a escravatura dos negros. Agora ergue-se, em Lisboa, a voz de D. Carlos Azevedo denunciando o neo-liberalismo económico que escraviza os pobres de Portugal. Uma e outra vozes têm um berço comum – Milheiros de Poiares, em Santa Maria da Feira. D. Carlos, que nunca a voz lhe doa!
2. Na Madeira, Alberto João Jardim, não teve papas na língua. Como de costume. Desta vez declarou, e muito bem, que não permitirá que, na Região Autónoma, se retire um único crucifixo das escolas. Já os mentores do laicismo, pela boca de Vera Jardim, responsável pela lei da liberdade religiosa, vieram dizer que esta decisão viola a Constituição. Mas que raio de liberdade religiosa é esta? Ser livre, que eu saiba, é poder dizer sim ou dizer não. Dizer sim aos crucifixos nas escolas é também uma forma de expressão de liberdade religiosa. Ou os defensores dos crucifixos são menos cidadãos que aqueles que propalam uma liberdade religiosa que se fundamenta na proibição? Proibir é que é contra a liberdade. Contra a liberdade de pensamento. Contra a liberdade de expressão. Contra a liberdade de consciência. Contra a liberdade religiosa. Tire-se, pois, o chapéu à decisão livre do doutor Alberto João.
3. No presente número do “Correio” são noticiadas algumas nomeações para ofícios eclesiásticos na Diocese. De entre elas sobressai a da mudança da equipa educadora do Seminário. Dos que agora chegam teremos ocasião de falar no futuro. Agora quero que fique registado, aqui, no meu bloco de notas, o apreço devido pelo trabalho do Cónego Aurélio Campos que, durante catorze anos, esteve à frente desta instituição que, hoje como no passado, é de importância fundamental para a vida da Diocese. Num momento pejado de dificuldades, advindas de diversos quadrantes, a acção do Cónego Aurélio sempre pautada pelo espírito de serviço e de amor à Igreja, deve ser destacada e enaltecida. Aqui fica o meu abraço, senhor Cónego-Reitor!
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